Hemingway era criminoso de guerra

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Hemingway era criminoso de guerra, diz alemão
Escritor americano teria matado 122 prisioneiros alemães, segundo cartas reveladas por jornalista
Antonio Gonçalves Filho
Não pergunte por quem os sinos dobram. Eles certamente dobram pela segunda morte do escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961), o mais novo caso de herói transformado em crápula após o escândalo Günter Grass. O autor alemão ainda teve tempo, em vida, de se retratar na autobiografia Descascando a Cebola por ter feito parte da Juventude Hitlerista e integrado a tropa de elite da Waffen-SS. Hemingway morreu intocado como o heróico correspondente de guerra que integrou o primeiro batalhão americano a marchar sobre as ruas de Paris após a vitória dos Aliados. Mas duas cartas em que o escritor confessa ter matado com prazer prisioneiros alemães na 2ª Guerra Mundial ameaçam manchar o nome de mais um Prêmio Nobel de Literatura (de 1954).
Se Grass jura não ter matado um único soldado durante o conflito mundial, Hemingway afirma com orgulho ter atirado contra prisioneiros desarmados, numa carta enviada em 27 de agosto de 1947 a seu editor Charles Scribner (1890-1952). Ela foi divulgada pelo jornalista alemão Rainer Schmitz, da revista Focus. Seu conteúdo é menos literário que a descrição do conflito ético entre o impetuoso brigadista Jordan e o indiferente Pablo, narrado no livro mais conhecido de Hemingway, Por Quem os Sinos Dobram.
Nessa carta, grosseira e sem meias-palavras, Hemingway afirma ter matado um 'chucrute' (como ele se refere, de maneira pejorativa, ao soldado alemão) que ousou desafiar sua força. 'Você não vai me matar, porque tem medo e pertence a uma raça de degenerados', teria dito o militar alemão a Hemingway, invocando a violação à Convenção de Genebra (como correspondente de guerra, Hemingway transgrediu a lei, armazenando armas e granadas em seu hotel parisiense). 'Você está errado, disse, e atirei três vezes, primeiro no estômago e depois na cabeça, fazendo cuspir seus miolos pela boca', escreve o autor de Adeus às Armas na carta.
Três anos depois, numa outra carta - ao professor Arthur Mizener (1907-1988), da Universidade de Cornell -, Hemingway volta a contar bravatas sobre sua atuação na guerra, descrevendo, em tom macabro, sua paixão homicida: 'Fiz alguns cálculos e posso afirmar com precisão ter matado 122 alemães.' Um deles, segundo o escritor, foi um jovem de 16 anos, baleado ao tentar fugir de bicicleta.
Evocar experiências de guerra com essa frieza não parece combinar com o escritor que deu ao mundo livros como O Velho e o Mar, mas pode explicar seu trágico fim em 2 de julho de 1961. Ele matou-se com um tiro de fuzil de caça. Culpa? Só Deus sabe.
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